segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sonho de uma noite sem fim



Consultório:

“Então, seus sonhos são menos freqüentes agora?”

“Sim, doutor, são.”

“O que apareceu no lugar deles? No lugar da sua obsessão?”

Não gostava de ser descrito como alguém obsessivo, mas com os anos de experiência em terapia, havia me acostumado.

“Apareceu uma imagem.”

O doutor se endireitou na cadeira, sua barbicha denunciadora de anos psicanalíticos, foi coçada intelectualmente, como uma imagem cômica de internet, um GIF.

“Uma imagem? Poderia me descrever essa imagem?”

“Uma borboleta.”

As sobrancelhas desenharam uma interrogação. O ar de decepção ficou evidente.

“Uma borboleta? Hum... E o que essa borboleta fazia?”

O que as borboletas fazem, doutor? Elas voam!

“Voavam.”

Um silêncio constrangedor.

“Vamos, eu sei que você pode me dar mais detalhes dessa borboleta.”

Poderia.

“Tudo estava branco, e no centro da brancura aparecia uma borboleta, ela batia as asas com suavidade, e até entrar corretamente no meu foco de visão, voava num mesmo ponto. Após isso, ziguezagueava pelo branco... E as cores saíram das asas dela, tingindo o ambiente ao redor, manchando, se misturando e solidificando uma nova imagem.”

“Que imagem?!”

Às vezes eu me sentia em um reality show na poltrona marrom do consultório.

“A imagem estava muito desfocada, não consiga entender... Até que...”

Olhei para o relógio na parede, 17h30. A consulta terminara às 17h20.

“Já é hora, doutor.”

“Que isso! Termine o sonho, vamos... Não vou deixá-lo sem resposta sobre isto.”

Como se algum dia fosse haver respostas para as minhas perguntas.

“Até que eu percebi que estava olhando para céu e ao meu lado, minha irmã ainda com doze anos, puxou a manga da minha camisa e depositou em minhas mãos um barco de papel. Me voltei para céu e já não havia mais céu... Porque não era céu, era mar. E o barco estava ali. E o mar estava ali.”

O doutor resfolegou alguma observação incompreensível. Olhou para mim.

“Continue com os comprimidos. Acho que seu inconsciente quer enganar a você e a mim.”

Sai do consultório sem contar de fato o final do sonho. No final, eu pegava o barquinho de papel e colocava no mar... E uma onda surgida automaticamente ao toque do barquinho, virava-se para ele e entrava dentro dele. E outra, e mais outra, e mais outra... Até o barquinho ficar totalmente cheio de mar, e molhado, terrivelmente molhado... E se desmanchar por completo. A imagem do barco aniquilado ficou parecendo uma borboleta desmantelada no chão...

“Ele nem perguntou qual era a cor da borboleta...”

Segui pela rua oposta direto para o ponto, no caminho abri o livro de poesias, meu casinho de fim de tarde havia me dado de presente.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

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