quinta-feira, 23 de junho de 2011

Saudade é Permanente


A gente tenta lidar, de uma forma ou de outra, com os percalços da caminhada e descobre sempre uma alternativa para driblar os inconvenientes que surgem, desacomodando a vida.

Uma decepção, um desencanto, uma perda, um dissabor ... Tudo isso e muito mais, o tempo consegue apagar, silenciar, dissipar. O passar das horas, o relógio da existência, tem um efeito balsâmico e reparador.

É medicamento eficaz que ajuda na convalescença de enfermidades várias. Porém, existe uma contra-indicação: - é inútil tentar usar o tempo para combater a saudade. Saudade é imune à ação do tempo. Aumenta a medida em que os dias passam e extrapola para além dos limites dos anos.

Existe saudade antiga e saudade nova. Saudade de muito e saudade de longe. Saudade de antes e saudade de sempre. E porque é viva, saudade é permanente, é constante, é fiel.

Saudade de cadeiras nas calçadas em fins de tarde ... saudade de fins de tarde com sol desmaiando nos braços da noite ... saudade da noite plena de estrelas, brilhando no campo negro do espaço ... saudade do espaço entre o pranto e o riso ... saudade do riso da infância e da festa da inocência ... saudade da inocência e da ausência de sofrimento. Saudade do amanhecer de ontem e saudade da noite anterior.

De grande e pequena saudade é feita a vida de cada um. E, porque não existe remédio, estende-se como epidemia, contaminando, indistintamente, homens e mulheres de todas as idades.

Saudade é fonte de inspiração, tema de livros, de cartas guardadas, de páginas amarelecidas.

Saudade é o que fica, é o que resta sedimentado, no cartório da vida; registros documentais do que foi, ontem e antes, comprovando os acontecimentos com firma reconhecida e autenticada.

E como a saudade é bonita, reflete no espelho da memória a beleza de tudo que a enfeita, nessas lembranças presentes do que se supõe ausente.

Saudade é artesã que tece tapetes coloridos e pinta arco-íris no céu interior de quem a conhece.

E a saudade já está comigo. A mesma saudade que motivou esta crônica ... Uma saudade que se renova, como um rapaz faceiro, alheio ao que passou, aguardando ansioso a véspera do acontecer para acrescentar mais jóias ao seu tesouro. Pois a saudade tem sempre saudade de tudo que é valioso.

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