quarta-feira, 11 de maio de 2011

Minha Crônica - Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter . . .



Tô aqui pensando em alguma coisa, um fato novo que me inspire nesta noite de quarta feira. De repente me vem à memória um trecho de certa música, um desses pops brasileiros que, de certa forma, mal dei atenção quando foi lançado. Inicialmente, nem vou me dar ao trabalho de procurar na internet algum site que traga a letra, na íntegra, porque, o que mais importa é o que realmente possa me inspirar agora, neste instante.
Dois versos, muito metaforicamente, diziam "um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão"e "sem querer eles me deram as chaves que abrem esta prisão...".

Na época em que esta música pipocou pelas FMs eu estava entrando na adolescência por tanto me achando maduro. Mas não maduro o suficiente para entender que aquela frase estava me convidando ao novo, de novo! A uma possível mudança radical da visão do que é viver. Eu era um rapaz que tentava ser livre nos meus 13 anos. Sonhava uma vida capaz de fundamentar minhas atitudes em ações que fossem geradas apenas a partir do meu livre arbítrio.Eu estava só comigo mesmo. Mas, lá estava eu sonhando com a vida. Tentava ser pleno em minha vontade de sonhar. Podia ir e vir, abrir caminhos... Imaginações que me pareciam suficientes para uma nova empreitada.

Mas o que difere hoje o entendimento daquela estrofe, em relação a aquele momento?
Se as nuvens não eram de algodão, havia razões concretas para que elas existissem.
Mas que chato ter que admitir que aquele autor, naquele momento, me convidava a sonhar, mas com os pés no chão. E o segundo verso, então? Sem querer eu entendo agora que, deixando de viver ilusoriamente, novas portas seriam abertas; que eu era prisioneiro de um sonho; que a vida não era mais a fantasia dos meus dias de infância.
Que loucura! Hoje, nos meus trinta e quatro anos, entendo que a vida já tinha um novo significado para mim naquele momento. Eu é que não queria enfrentar uma nova realidade... de frente.

Mas, por onde quero me enveredar com tantos volteios? Aquelas metáforas, tão inteligentemente construídas, agregaram novos significados em uma história que, até bem pouco tempo, parecia ser escrita, apenas e tão somente, ao meu comando. Eu pensava que tudo o que acontecia e o que deveria acontecer em minha vida obedecia apenas à minha vontade.
Mas que nada!
Eu já estava vivenciando um turbilhão de novas emoções e não percebia.
Eu desejava continuar sendo um romântico e o mundo não mais me aceitava assim.

Que nada!

Num momento seguinte vem a ordem de todos os cantos do mundo: cuidado não se emocione na hora o sexo! Use a razão, use preservativo!
Hã! Caramba! Quem foi o infeliz que pretendeu decretar o fim da felicidade? Não, nada disso! Eu faço sexo por amor, por paixão, por carinho... Por que querem acabar também com este sonho?
Ai então a grande bomba que se mantinha velada há quase uma década detona em minha cabeça, numa explosão de milhões de megatons: AIDS... HIV. 

Você não é mais um cara livre como foi antes do casamento; que num impulso do coração podia amar e ser amado, que podia deixar explodir seus sentimentos e encarar a lua formosa em uma noite maravilhosa de amor e dizer: eu não preciso de você para ser feliz! Eu tenho minha própria estrela! Acabaram com a liberdade de nos fazermos felizes apenas por nossas emoções. Até no ato do amor a razão passa a falar alto.
Esta nova descoberta, na minha segunda adolescência – sim era assim que eu me sentia já chegando aos meus vinte e um anos de idade -, me trouxe uma tremenda frustração. 

Não bastava mais ter sido acordado em meio a uma nova realidade em que o sistema determinava minhas ações como cidadão, agora me vinha aquele que passaram a chamar de o mal do século, interferir também minha nova vida amorosa. Não tínhamos mais que nos preocupar apenas com gravidez ou não gravidez; o fato novo era amar ou não amar. Ser responsável em desgraçar ou não a vida da pessoa amada, mesmo agindo por amor.
Grupos de risco foram apontados, profissionais dos mais diversos e, até então, inocentes segmentos, em relação à saúde, como uma simples manicure, ou mesmo aqueles que contribuem para com nossa saúde, como os dentistas, passaram a ter que se preocupar com aquele mal.

Acabava de ser decretado o fim da espontaneidade em nossas vidas amorosas!
Uma corrida sem fim em busca de soluções, medicamentos, antídotos, enfim, mas só recentemente iniciou-se o exercício da esperança: já existem caminhos novos a partir de medicamentos e prováveis vacinas para a prevenção e até para a provável cura. Ainda me soa como utopia, mas dizem que existem.Por fim perdemos Poetas. . .
Pronto! Um dia de primavera poderia ser novamente visto como um dia romântico. Não poderíamos abandonar os preservativos, até porque já faziam parte da nova cultura sexual, mas sabíamos que aquilo tudo já era uma realidade passiva de correção.

Ledo engano.

Novos tempos, novos rumos, novas armadilhas em nossas vidas.
As agressões à natureza, o efeito estufa, mutações genéticas... e primavera já não é mais certeza de jardins e campos floridos!
Não bastasse isso, viajar passa a ser um risco. Cuidado para onde você viaja! Se for para um paraíso tropical previna-se com vacinas tipo "x", se for para outro continente, cuidado com a síndrome da vaca louca, das galinhas malucas... dos porcos!
Socorro! Uma foto nos jornais mata expectativas de uma nova vida.
Um casal usando máscaras cirúrgicas tenta se beijar... Frustrados pela distância provocada por duas peças de tecidos procuram exprimir seu mais singelo gesto de carinho. Um beijo.

Dois mil e nove... ano em que fazer reparos em satélites em pleno espaço se tornaram rotina, é acometido do mal da gripe suína!
Preservativos, já de muito, impediam contatos genitais verdadeiros, separados por uma membrana de borracha, e agora, mascaras de pano impedem que lábios se toquem!
A espontaneidade já não existe mais, nem mesmo nos gestos mais básicos de carinho! Somos vigiados pelo sistema, pela burocracia, pela razão... pelo medo!
Acabou-se a poesia, acabou-se o romantismo, acabou-se a liberdade de ir e vir... e, como as nuvens não são mais de algodão, acabou-se a liberdade de sonhar e amar.
Mas, será que abrir estas novas prisões será possível?
Será que não mais nos deixarão viver plenamente nossos sonhos?
Será que nossa liberdade de expressão, de escolha, de...

Por falar em escolhas, agora nem quem poderia nos salvar das decepções políticas querem que continuemos a escolher, por livre arbítrio. Seremos obrigados a eleger o pacote de mais uma incerteza, sem saber se os eleitos estarão comprometidos ou não com algum projeto voltado para um dos elementos mais simples de todos: comprometimento com nossas vidas. Comprometimento em devolver a felicidade de se viver em um mundo onde, mesmo que as nuvens não sejam de algodão, sejam apenas vapor de água pura, como pura e apenas baseadas no amor, deveriam voltar a ser nossas relações; um pacote que atenda à expectativa que temos em relação aos nossos filhos: um comprometimento com a felicidade a partir da saúde e do conhecimento!

Mas, cuidado, tome um antidepressivo antes de abrir as próximas edições dos jornais! Pode ser que uma nova síndrome seja lançada para nos alertar que nem nuvens passarão a existir e que viver passará a ser apenas um exercício espiritual, na qual cada um deverá ter projetos próprios, baseados única e exclusivamente na fé de uma vida melhor, quem sabe a Vida Eterna!
Será que os versos do refrão daquela música predestinavam alguma coisa? O que Humberto Gessinger, autor desta preciosidade do pop brasileiro, quis dizer com "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter"?Não parece descrever um cenário de limitações para todos nós? Gessiger afirmou em recente depoimento no site dos Engenheiros do Havaí que, o que disse é que "somos tudo o que podemos sonhar."

Será? Ele não parecia nada alienado ao afirmar que "Quem ocupa o trono tem culpa, quem oculta o crime, também."
Ou seja, hoje, nossa realidade se confunde em exercer o poder e poder fazer o poder.
E tudo isso por eu não ter nada pra escrever nesta noite de quarta feira . . .